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Zaatari e a transformação urbana dos campos de refugiados

Estar em uma casa, por mais simples que ela seja, que nos faça sentir conforto e proteção, torna difícil imaginar o quão grave deveria ser uma situação que nos fizesse abandonar tudo que temos, mas ainda desejar voltar. Porém, infelizmente, esta é a realidade de milhões de pessoas em nosso planeta. As mudanças climáticas, a crise econômica mundial, as guerras e a própria globalização são responsáveis pela maior onda migratória de todos os tempos. Os refugiados, que conseguem sobreviver às longas e arriscadas travessias, buscam nada mais do que novas oportunidades e segurança, mas acabam estocados em campos durante muitos anos, alimentando a esperança de, um dia, retornar ao lar.

Estamos presenciando, hoje, a maior onda migratória de todos os tempos.

Assim como é difícil ir ao encontro do desconhecido é recebê-lo. Muitos são os governos que veem tomando medidas para barrar a entrada dos imigrantes, sem olhar para o lado humanitário, com medo de terem de compartilhar suas riquezas. Contra isso, muitos refugiados apresentam uma visão empreendedora e trabalham arduamente para mostrar que sua contribuição pode ajudar a desenvolver a economia dos países que os recebem.

Aqueles países, que aceitam receber a massa errante, preferem separá-los das grandes cidades, acomodando-os em campos construídos com ajuda da ONU (Organização das Nações Unidas). Mas, no fim, a maioria dos governantes não sabe como gerir ou planejar os serviços mais básicos para estes locais. E, com ou sem planejamento, acaba que um local que era para ser provisório torna-se, rapidamente, um grande centro populacional, a nova grande morada destas famílias. É como uma incubadora urbana. O desenvolvimento destes campos é um alerta para a necessidade de eles serem tratados não como agrupamentos de barracas, mas futuras cidades.

Desenvolvimento urbano aglomerado em sistema de auto provisionamento.

+ O campo de Zaatari

Zaatari é o maior campo de refugiados no Oriente Médio. Ele localiza-se na Jordânia e já possui quatro anos de existência. No início, era apenas uma fileira de tendas. Hoje, abriga aproximadamente cem mil pessoas, sendo mais da metade crianças. Seu tamanho é comparado à cidade de Cambridge, na Inglaterra.

Algumas das tendas foram pouco-a-pouco sendo substituídas por trailers, containers, abrigos pré-fabricados e casas que são construídas pelos sírios à sua maneira. Com o tempo, mais coisas incríveis foram surgindo, resultado de uma aglomeração urbana de auto provisionamento. Foram construídas empresas, mercados, lojas de roupas, de equipamentos domésticos, de informática, floriculturas, hortas particulares, sorveterias, pizzarias, postos de saúde, agência de viagens – com transporte para o aeroporto mais próximo – e muito mais. É um comércio ilegal, mas que prova a todos o quanto eles são batalhadores.

Vista aérea do maior campo de refugiados do Oriente Médio – Zaatari

Com a chegada de mais e mais refugiados, o tecido urbano de Zaatari está em processo crescente,  com bairros, zonas nobres, sistema de endereçamento e até uma avenida principal apelidada de Champs–Élysées. O plantio de mudas, a construção de fontes e áreas verdes têm sido incentivada pelo governo jordaniano.

Este quadro, de transformação urbana, é bem diferente. Mesmo que neste campo os refugiados enfrentem sérios problemas no sistema elétrico, na distribuição de água, de crime, de prostituição e tráfico de drogas, a população síria ainda mantém sua esperança. É uma realidade nova para as políticas e práticas humanitárias. Zaatari tem vida forte e pulsante e parece que isso se perpetuará.

Apesar da crescente economia de Zaatari, existe um grande número de sírios planejando voltar para casa. Além da saudade, pois muitos ainda possuem familiares no país natal, suas economias estão esgotando, após anos em exílio. Por preconceito, falta de organização ou carência de recursos, muitos países sede não fornecem aos refugiados meios de subsistência legal. Em Zaatari, há inúmeras crianças e jovens sem frequentar escola e adultos sem emprego. Portanto, é uma luta diária, mas vale a pena quando se trata de ir atrás do que de melhor a Terra ainda pode lhes oferecer.

Fontes: Gazeta do Povo, Agência da ONU para Refugiados

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