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Conheça os prós e contras dos projetos de megacidades na África

De acordo com estimativas, a maior parte dos centros urbanos que concentram grandes quantidades de habitantes – com, no mínimo, mais de 10 milhões de pessoas – está localizada em países pobres, emergentes ou subdesenvolvidos. As ‘cidades globais’ ou ‘megacidades’, como são chamadas, são uma forte tendência de urbanização que vem ocorrendo no mundo, resultado do processo de globalização ocorrido a partir do século XX. Infelizmente, seu crescimento ocorre, geralmente, de forma descontrolada, sem planejamento. E acabam sendo comuns problemas diversos associados ao aumento da poluição, da violência e de doenças; problemas com relação à mobilidade, ao saneamento básico, e também o surgimento da ‘gentrificação’.


Veja também: O texto definitivo para entender gentrificação e sua relação com o urbanismo


Cidade de Johannesburg, África do Sul. (imagem extraída de Kartaba em Flickr)

+ O crescimento urbano no continente africano

Relatórios mundiais, divulgados nas últimas décadas, como o ‘State of the World’s Cities’, afirmam que a crescente urbanização no continente africano é resultado das guerras civis, da pouca oferta de emprego em zonas rurais, da pobreza e outras carências humanas. Desde a década de 1970, seus países são os que apresentam a maior taxa de pessoas morando em áreas metropolitanas. A explosão demográfica nestas regiões foi tamanha que rapidamente surgiram as megacidades. Infelizmente, poucas delas foram preparadas, com antecedência, para receber essa quantidade de população.

“É necessário mais investimento para fazer que o crescimento urbano seja sustentável, por exemplo, melhorar as infraestruturas e a tecnologia” – diretora executiva da UN-Habitat, em reportagem de site Além-mar.

Cidade de Acra, Gana. (imagem extraída de Wikipedia)

+ O sonho de se chegar ao El Dourado

Apesar da elite rica africana estar se expandindo – sabendo que a melhor chance de se escapar da pobreza é viver em áreas urbanas – grande parte da população do continente ainda permanece numa condição de extrema miséria. Para mudar este cenário, investidores, arquitetos e engenheiros do mundo todo têm apresentado propostas revolucionárias e sofisticadas de novos arranha-céus e megacidades. Mas, as reais condições destas novas áreas construídas seria algo muito além do que as comunidades poderiam, de fato, arcar.

Na ilusão ou na ganância, alimentada pelo capitalismo desenfreado, e com inspiração em projetos internacionais de países em desenvolvimento, como Emirados Árabes, China e Singapura – sem qualquer conexão cultural com a própria África – alguns governantes têm permitido a construção de obras praticamente míticas. Atualmente, há, pelo menos, vinte megacidades, de altíssima qualidade, sendo erguidas na África. O problema é que estes projetos visam apenas um pequeno segmento de sua vasta população. Esse é o resultado da exploração da camada mais rica e poderosa sobre o que é mais vulnerável, desconsiderando questões sociais, ecológicas e climáticas.

Cidade do Cairo, Egito. (imagem extraída de Fulgencio em Flickr)

+ A triste verdade das cidades africanas

A urbanização da África combina muito mais com exclusão e marginalização do que com luxo e inovação. A maioria das grandes cidades jamais se preparou para receber tantas pessoas. Os índices de criminalidade são elevados; os serviços de infraestrutura são ruins; há muita desordem, falta de abastecimento de água e eletricidade em certas regiões; e frequentes processos de gentrificação, onde proprietários e inquilinos abandonam suas casas, de forma voluntária ou involuntária, por não conseguirem mais pagar os impostos. Além disso, as cidades africanas estão entre as mais expostas ao aquecimento global e as drásticas alterações climáticas, que acabam agravando ainda mais todos os problemas.

Por tudo isso, a criação de novos bairros e megacidades luxuosas têm gerado grande polêmica entre camadas diferentes da população. Alguns alegam que os ricos estariam explorando a crise para aumentar a desigualdade e se isolar de seus impactos. Em outras palavras, seria uma abordagem desonesta de afastar os pobres, considerados desagradáveis, dos olhos do mundo. Neste momento, diversas comunidades africanas estão sendo impetuosamente forçadas a saírem de seus lares, num processo de “liquidação e higienização urbana”.

Cidade de Nairobi, Quênia. (imagem extraída de Pixabay)

+ O projeto da Eko Atlantic City

A Nigéria é um país de extrema importância econômica e social dentro do território africano. Nação populosa, ela tem dois terços das pessoas vivendo na pobreza. Contraponto a isso, sua antiga capital, Lagos, planeja construir um grande centro – com acomodações financeiras, comerciais, residenciais e turísticas – em resposta a cidades como Dubai e Hong Kong. A Eko Atlantic City será erguida sob uma nova península, construída de areia dragada do fundo do oceano, com área aproximada de dez quilômetros quadrados. Dez distritos serão o lar de um milhão de pessoas – sendo que é previsto um fluxo diário de mais de cem mil trabalhadores na região.

“Uma nova cidade emergirá da parcela recuperada da terra e esperamos que não menos de 1, 200 prédios altos surgirão lá. Esse é o futuro que buscamos para o Estado de Lagos, será um lugar que estará animado com atividades” – Fashola, governador do Estado de Lagos, em repostagem de Orlean Invest.

O projeto da Eko Atlantic City é financiado pelos irmãos libaneses donos do Chagoury Group e de uma série de bancos africanos e internacionais. (imagem extraída de CNN)
A construção da Eko Atlantic só está sendo possível graças uma parceria público-privada. Uma das empresas envolvidas é a ar+h Architects. (imagem extraída de Reic)

+ A oferta de uma cidade ecológica de classe mundial

Em propagandas e reportagens, veiculadas nos veículos de comunicação do país, os empreendedores garantiram que a Eko Atlantic será uma cidade sustentável, limpa e eficiente. Diz-se que o impacto será bastante positivo para todos. Que serão gerados muitos empregos graças à atração de corporações multinacionais. Que impactará pouco a natureza, pois o empreendimento será abastecido com energia renovável contínua. Que irá ajudar a parar com a erosão do litoral do estado de Lagos. Que será algo comparado a cidades como Londres ou Nova York.

Acredita-se que a Eko Atlantic City deva se tornar o maior centro financeiro da África Ocidental. (imagem extraída de Pinterest)

“Em vez de se tornar um empreendimento financeiro, o experimento do Eko Atlantic pode ser levado a mais, sem nenhum custo extra para se tornar o centro para transformar a boa governança na Nigéria e na África Ocidental. (…) Se a cidade de Eko Atlantic é tratada com competência por especialistas mundiais nos campos jurídico, econômico e industrial, os retornos para a economia de Lagos podem facilmente duplicar” – Gbenga Oduntan, professora da Universidade de Kent, no Reino Unido, em reportagem de International Business

Atrás dos “muros” da Eko Atlantic, milhares de pessoas deverão continuar abandonada, esperando seu momento de prosperidade, um sonho ainda muito distante. (imagem extraída de Real State Ware)
Alguns especialistas afirmam que, ao contrário do que se afirma, as obras da Eko Atlantic poderão causar erosão costeira e elevação do Oceano. (imagem extraída de Venture Africa)

+ O outro lado

Claro, não há dúvidas de que a nova cidade será maravilhosa. O fato dos governantes de Lagos terem planejado para a Eko Atlantic questões importantes como a qualidade da água, a gestão de resíduos, e os sistemas de segurança e transporte é notável. Porém, aqueles cidadãos que vivem a poucos quilômetros do local do projeto, em favelas aquáticas, por exemplo, não se beneficiarão com os edifícios ou com a energia limpa da Eko Atlantic. Então, pode-se dizer que esta ostentação absurda só servirá de fachada para negar a realidade, que é a de milhares de pessoas passando por necessidade, enquanto poucos usufruem do dinheiro de seu trabalho.

“Construir a Eko Atlantic é contrário a qualquer coisa que alguém queira fazer se tomarmos a sério as mudanças climáticas e o esgotamento de recursos” – Nnimmo Bassey, ativista ambiental, em reportagem de The Guardian.

Veja mais informações sobre o projeto da Eko Atlantic assistindo aos vídeos a seguir:

Fontes: ArchdailyAlém-marCNNThe GuardianWikipediaEko Atlantic.


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