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Arquiteta gera polêmica ao dizer que os profissionais estão mais preocupados com a técnica do que em entender as pessoas

Em um texto chamado “What Starbucks Gets that Architects Don’t”, Christine Outram – arquiteta responsável pelo projeto Copenhagen Wheel, invenção capaz de transformar uma bicicleta comum em uma bicicleta elétrica, e atualmente coordenadora de uma agência de publicidade americana – escreveu uma carta aberta a todos os arquitetos, destacando o que ela acredita ser o principal problema para os profissionais da construção nos dias de hoje. Dando como exemplo o projeto arquitetônico da rede de cafeterias Starbucks, Christine destaca a importância de se escutar as pessoas, seus anseios e necessidades.

Leia abaixo o conteúdo, traduzido por Gabriel Pedrotti para o site Archdaily:

 

“Caros arquitetos,

Vocês estão desatualizados. Sei disso porque já fui uma de vocês. Mas agora mudei. Evolui porque apesar do amor que vocês sentem por uma bela curva e suas experimentações com formas, vocês não entendem as pessoas.

Vou me corrigir. Vocês não escutam as pessoas.

Em termos legais, um arquiteto é aquele profissional da construção que tudo vê, tudo sabe. Vocês são os responsáveis por tudo que acontece de errado em um edifício, mas e se alguém simplesmente odiar os espaços que você projetou? Se alguém se sentir desconfortável, ou com frio, ou com medo? Bom, quanto a isso não existe nenhuma ação judicial.

Eu costumava pensar que era impossível para vocês responderem à um público do mesmo modo que fazem as startups. Essas startups podem construir um produto, lançá-lo na internet e ajustá-lo com base no feedback que recebem. É um processo interativo. Arquitetura, pensava, era muito permanente para isso. Tinha muita coisa em jogo, apenas uma chance de se fazer corretamente, muitas variáveis e todo aquele blá blá blá.

Mas a verdade é que muitos de vocês nem tentam. Se baseiam nas regras de ouro e livros consagrados, mas raramente fazem pesquisas etnográficas aprofundadas. Podem sentar no terreno durante uma hora e observar as pessoas “utilizarem o espaço”, mas vocês se levantam e vão lá falar com elas? Descobrem suas motivações? Suas tentativas realmente incorporam as vontades dessas pessoas no processo?

O mundo está mudando. Vocês têm todas essas ferramentas em suas mãos. Novas ferramentas que não vejo sendo usadas e muitas técnicas antigas nas quais vocês poderiam melhorar bastante.

Essa ideia fez sentido pra mim quando li um artigo recente sobre os projetos das lojas Starbucks. Vocês podem odiar o Starbucks. Podem acreditar que eles são uma entidade comercial sem alma, sem nenhum mérito arquitetônico, mas sabem em que eles são bons? São bons em responder às necessidades das pessoas e seus desejos.

Do artigo:

O Starbucks entrevistou centenas de consumidores de café, buscando saber o que eles queriam encontrar em uma cafeteria. O consenso da maioria esmagadora na verdade não tinha nada a ver com o café, os consumidores procuravam o que seria um lugar de descanso, um lugar de pertencimento.

Meus caros arquitetos. É por isso que a Starbucks possui mesas redondas em seus estabelecimentos. Elas foram pensadas “em um esforço de proteger a autoestima de seus consumidores solitários”. Não eram mesas redondas porque o arquiteto pensou que ficaram mais agradáveis assim, não eram redondas porque eram mais baratas, mas eram redondas porque, assim como conclui o artigo, não existem lugares vazios em mesas redondas.

(Via

As mesas redondas no Starbucks foram o resultado de se perguntar como queremos que as pessoas se sintam antes de considerar o que queremos que elas façam.

A forma segue o sentimento.

Agora, eu não estou dizendo que todos os arquitetos são ignorantes neste sentido. Arquitetos residenciais muitas vezes têm sucesso quando se trata de construir espaços habitáveis. E aí tem Gehl Architects. Eles são famosos e respeitados por suas técnicas etnográficas – embora hoje em dia eles pareçam mais focados em master plans e renovações urbanas, e não acho que realmente façam arquitetura. Ou fazem? E mesmo assim, eu teria que assumir que esses arquitetos empregam métodos antigos de observação com exemplos limitados de escalas.

Aparentemente, vocês não abraçaram as oportunidades que a internet tem nos oferecido. Oportunidades como: pesquisa de um grande número de pessoas que usam ferramentas online ou simulação da probabilidade de um espaço comercial realmente ter tráfego de pedestres. Ninguém quer uma série de lojas vazias. Isso acaba se tornando um bairro triste. Vocês poderiam utilizar e desenvolver ferramentas que auxiliem a entender se isso vai acontecer. Mas vocês não o fazem.

O mesmo acontece para o resto da profissão. Vamos combinar que a maioria dos edifícios comerciais, hospitais e delegacias de polícia estão abaixo do esperado de um edifício público. E mesmo quando são agradáveis aos olhos, isso não significa que eles foram construídos para atender as necessidades humanas: se não acredita em mim, leia este artigo do New York Times sobre os edifícios de Santiago Calatrava.

Não é de se espantar que a arquitetura se transformou em uma vocação de nicho. Não se relaciona mais com as pessoas.

O problema é que arquitetos parecem seguir as últimas tendências descoladas da linguagem formal. Proponho um desafio: folheiem alguma revista de arquitetura hoje. Encontram alguma pessoa nas fotografias? Imaginei que não. Com certeza encontrarão muitas imagens que idolatram ângulos obtusos ou o encontro de dois materiais.

Posso estar errada. Talvez a profissão tenha crescido e amadurecido enquanto eu não estava olhando e começou a direcionar um olhar mais centrado nas pessoas que vão habitar seus edifícios. Mas o que realmente me deixa perplexa é que a maioria de vocês nunca realizam avaliações pós-ocupação! (Essa eu não consigo superar).

Então se eu estiver errada, me prove. Até que seja provado o contrário, permaneço desapontada.”

 

A repercussão

Não é de se espantar que o texto gerou polêmica, com muitas opiniões favoráveis e contrárias. Por causa disso, Christine fez um segundo texto, que você pode ler na íntegra aqui. Nele, ela se justifica dizendo que a premissa do texto original era questionar se os arquitetos estavam se esforçando para entender mais sobre as pessoas para as quais eles projetam, se valendo das ferramentas digitais disponíveis para tal, mas também se redime deixando claro que todo o conteúdo nada mais era do que sua opinião.

Para entender o quanto isso era representativo ou não, ela fez duas pesquisas, com arquitetos e não-arquitetos, e pôde tirar alguns insights interessantes:

 

Quanta informação, não é mesmo? Queremos saber de você, profissional e estudante da área, o quanto vocês concordam ou discordam dos pontos que ela apontou. E aí?

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