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Conversamos com o artista Felipe Franco para entender o trabalho de Fine Art em tempos digitais


A arte ao longo da história passou (e continua passando) por diferentes momentos e transformações. Do papel às plataformas digitais, os trabalhos artísticos se modificam, mas em comum mantêm o poder de transformação e de influência.

reproduções de arte
Imagem: Crown Fine Art

Até mesmo os conceitos se alteram e um dos exemplos é o que conhecemos por Fine Art. No passado, este termo se referia às produções com um caráter meramente estético e sem utilidade prática, ao contrário do que representava um quadro ou um retrato encomendado no período dos mecenas, que independente das técnicas artísticas, tinham um objetivo definido.

Com o passar do tempo, este conceito atingiu a área da impressão e passou a ser entendido como a reprodução de imagens, como as gravuras, por profissionais especializados e com olhar artístico. Não era uma simples cópia, pois havia o domínio de técnicas voltadas à arte.

+Fine Art hoje

Hoje o conceito se estende não apenas às artes e à impressão, em que há um maior cuidado no processo de reprodução de uma imagem, mas também à fotografia, em que as imagens são capturadas a partir do impulso artístico, e não apenas com caráter documental.

Mas quais são os desafios para a reprodução de obras artísticas hoje? O que a arte representa em nossas cidades e quais as transformações pelas quais passaram até o presente, em que as plataformas digitais se destacam?

Nada melhor do que conhecer as experiências e a visão de quem trabalha diretamente com Fine Art e arte gráfica. Por isso, o Blog da Arquitetura conversou com Felipe Franco, designer que já atuou em diferentes plataformas, é atualmente diretor de arte e, entre seus trabalhos, já foi designer do site Papo de Homem. Com formação em Design de Multimídia e Design Gráfico com ênfase em tipografia, sua visão acaba por abranger diferentes facetas artísticas.

Exemplo da arte de Felipe Franco
Imagem: Felipe Franco

+BDA Entrevista

BDA: Sua formação acadêmica tem influências do design multimídia e da tipografia, assim como seus trabalhos. Como você vê o papel, partindo de suas obras, da arte produzida e propagada a partir de uma plataforma digital?

O papel é a base mais fácil e rápida de começar um trabalho. Independente da plataforma final, todo projeto que começo é com um rabisco em uma folha de papel, caderno, ou guardanapo de boteco. Hoje o papel ainda é o mais rápido, mas isso está mudando. A tecnologia de canetas digitais está cada vez mais precisa, mas ainda é uma tecnologia cara. Tenho visto muita gente fazendo trabalhos incríveis diretamente em iPads, por exemplo, mas o papel e o lápis ainda são os mais viáveis e fáceis de fazer.

Como tenho formação no digital e no analógico, fazer essa transição é algo fácil e natural, não consigo desassociar um do outro. Se vou pintar um muro, penso como ele seria feito no computador. Se vou fazer uma ilustração digital, penso como faria ela com tinta no papel.

+Processo criativo

BDA: Como é seu processo de criação com relação às influências e preparo?

Gosto de começar o trabalho criando um conceito para ele, mesmo que de início isso não seja um pedido do cliente, pois isso me ajuda a pesquisar sobre o que quero fazer. Depois do conceito definido procuro de tudo: músicas, filmes, fotos, literatura… Depois vou para o caderno de rascunho e faço alguns estudos com formas bem simples. É difícil de compreender para quem está de fora, rabiscos bem jogados e soltos mesmo.

Depois da fase dos estudos, vou para o computador, tento montar um grid. Gosto muito de trabalhar com ferramentas vetoriais, então nelas começo a desenhar com formas geométricas simples e vou desenvolvendo a imagem.

Minha base de criação é o Design, estudei na Escola de Artes Panamericana e na época eles tinham muita influência da escola alemã Bauhaus. Daí vem meu gosto pelas formas geométricas. Sou muito inspirado em movimentos artísticos e técnicas que exploram isso, como as tatuagens tribais, adornos celtas e nórdicos, construtivismo russo, cubismo, suprematismo, xilogravura de cordel e Expressionismo alemão.

Processo de criação de Felipe Franco
Imagem: Felipe Franco

BDA: A partir de seus objetivos em suas criações, você costuma definir seu trabalho como um exemplo de Fine Art?

Nunca parei para pensar nisso. Gosto de pensar que meu trabalho, acima de tudo, é um trabalho criativo, independe da plataforma final. Pode ser uma ilustração editorial, um grafite em um beco escuro ou para uma animação, e o Fine arte também pode ser uma dessas opções.

+Desafios

BDA: Ilustrações e fotografias são exemplos distintos de “fine art”. Há desafios de produção e divulgação da arte, sejam as belas artes ou as fotografias, na era digital, quando comparados a anos anteriores?

Acho que o desafio de divulgação sempre fez parte da carreira do artista. Os renascentistas precisavam de um Mecenas para divulgar, expor e bancar suas obras. Os pintores da Belle Époque precisavam estar nas grandes feiras de artes e centros culturais para serem vistos.

Nós hoje temos as redes sociais e grandes canais de conteúdo. Na verdade acho que hoje temos muito mais facilidade e ferramentas para divulgar e produzir arte que outras gerações, a diferença é que a facilidade em produzir e divulgar também gera uma saturação, o que torna difícil a tarefa de se destacar na multidão de trabalhos bons.

Exemplo de trabalho de Felipe Franco
Imagem: Felipe Franco

+Arte urbana

BDA: Em 2012, você participou do “Cavalete Parade” na Avenida Paulista, evento criado na época como forma de chamar a atenção para a arte e para a poluição urbana. Como você vê o papel da arte para as cidades e espaços públicos, em tempos em que até os grafites viraram tema de debate?

Essencial! O papel da arte no meio público é essencial! É a forma mais democrática de expor ideias e expressar a cultura de um povo. Muitas vezes esquecemos que uma cidade não é feita de prédios e carros, e sim de pessoas. A arte urbana nos lembra disso. É fantástico ver no meio de um monte de cinza um personagem colorido saltando de uma parede de concreto, uma poesia pichada em um viaduto sujo, um abstrato em uma parede vazia que te faça pensar sobre o que o artista queria passar com aquelas formas, o que ele queria que você sentisse.

Na minha opinião, arte em locais urbanos te leva para longe da correria do dia a dia, te faz reparar no espaço que você está, pensar em como alguém foi capaz de fazer aquilo, ou simplesmente admirar.

O lado bom da censura que vem rolando em alguns lugares é que isso fomenta a criatividade. A arte por essência é livre e a arte urbana e o grafite são selvagens e efêmeros, não foram feitos para serem domados, e sim aceitos.

+Conselho para quem está começando

BDA: Que conselho você daria para quem tem interesse em seguir a área do design e da arte digital?

Não foque em ferramentas e sim em conteúdo, conceitos e valores. Vira e mexe aparece alguém me perguntando como usa o programa X ou Y, qual tinta é melhor e coisas do tipo. Acredito que se você tiver conteúdo, isso é o que menos importa, pois técnicas e ferramentas são fáceis de se aprender – em qualquer busca rápida no YouTube você encontra milhares de tutoriais. Agora bagagem cultural e repertório visual demoramos para construir, e só se consegue estudando muito. Nunca pare de rabiscar, seja em papel ou em um computador.

[+BÔNUS]

Colocamos um conteúdo exclusivo sobre Fine Art e o trabalho do artista Felipe Franco no perfil oficial do Blog da Arquitetura no Instagram. Confira!


Referências: Finephoto, Geraldo Garcia – Fotografia & IdeiasBehance, Instagram


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